As Cinzas de Camillo by Visconde de Vila Moura

As Cinzas de Camillo

byVisconde de Vila Moura

Kobo ebook | July 29, 2009

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O JAZIGO DE CAMILLO NA LAPA E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o{65} suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o antecipe na morte!«A mãe destes dois desgraçados, escreve elle, não promette longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna Placido morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel á minha grande comprehensão de Desgraça.»[10]Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos seus restos, elle, deliberadamente,{66} dispoz, e importa que, em bem da sua memoria, nós todos acatemos.Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a violencia da trasladação!A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a ossada.Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu cargo!E se, effectivamente, á consciencia nacional,para lá do susto romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle{67} tão extranhamente batida de desgraça,não se exasperem os seus devotos que não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o reconhecimento que lhe devem!Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lheque esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses manuaes de mentira que por lá correme substitui-los por livros de excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o documento vivo da sua grande alma!Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na altura devida!{68}Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; mais nada!Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:tenho tempo, esperarei...Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o sagremos?O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada representa. Deixemos os grandes mausoleos para os seus brazileiros; estes sim, precisam delles.Camillo não, pois que é já tão{69} grande,embora o vejamos ainda crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parteainda nos mais humildes templos...Ancêde, 1 de outubro de 1917. [1] Vid. «O Romance do Romancista» por Alberto Pimentel. [2] Vid. ob. cit. [3] Obr. cit
Title:As Cinzas de CamilloFormat:Kobo ebookPublished:July 29, 2009Publisher:Library of Alexandria

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ISBN:9990009156642

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