Da terra à lua (ilustrado) by Jules Verne

Da terra à lua (ilustrado)

byJules Verne

Kobo ebook | October 28, 2015

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Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de
Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande
influencia.

É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por
entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas.
Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de
improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem
terem passado pelas escolas de applicação de West-Point[1]; em curto
espaço foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho
continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar
balas, milhões e homens, brilhantes victorias.

Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na
sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais
elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões
desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até
então desconhecidos.

Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos
de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem
prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros
europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis
machinismos bellicos da artilheria americana.

Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os
primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano
nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto
nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da
balistica o audacioso engenho de que são dotados.

Assim se explicam esses gigantescos canhões, que, muito menos uteis que
as machinas de coser, são pelo menos tão admiraveis e de certo ainda
mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de
Dahlgreen e de Rodman são bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os
Treuille de Beaulieu não tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos
perante os seus rivaes de alem mar.

Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios
do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o
primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da União os inventos com
enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o
mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabeça dia e noite a
calcular trajectorias impossiveis.

Ora quando a uma cabeça de americano acode uma idéa, busca logo o seu
possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo
presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a
_mesa_; cinco, convocam-se em assembléa geral, e está constituido um
club. Assim succedeu em Baltimore.

O primeiro que inventou um novo canhão associou-se com o primeiro que o
fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do
Gun-Club[3], que um mez depois da sua inauguração contava mil oitocentos
e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e
cinco socios correspondentes.

A todos que queriam fazer parte da associação era imposta uma condição
_sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeiçoado, um
canhão; na falta de canhão uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a
verdade inteira, bem pouca consideração gosavam os inventores de
revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas.
Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.

A estima de que é credor qualquer socio, disse um dia um dos mais
entendidos oradores do Gun-Club, é proporcional «ás massas» do canhão
que inventou, e está «na rasão directa do quadrado das distancias a que
alcançam os respectivos projectis!»

[Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).]

Com pequena differença, era a lei de Newton ácerca da gravitação
universal transportada ás cousas do mundo moral.

Fundado o Gun-Club, facil é imaginar o que produziria n'este genero o
engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram
proporções colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos
partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos
deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria
europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.

Outr'ora «bom tempo era esse» uma bala de trinta e seis, á distancia de
trezentos pés, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou
sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha
progrediram muito os projectis. O canhão Rodman, que, com uma bala de
meia tonelada[4] alcançava a sete milhas[5], facilmente poria fóra de
combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se até a
discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma
experiencia solemne as qualidades d'este canhão monstruoso. Porém se os
cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de
homens nem um só se offereceu.

Em todo o caso, o que é fóra de duvida é que o effeito d'estas armas era
extremamente mortifero e que por cada tiro caíam os combatentes como
espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes
projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fóra de
combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758,
matou quarenta infantes, e o canhão austriaco de Kesselsdorf, em 1742,
que por cada tiro derrubava setenta inimigos?

Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de
Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra
federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de
Gettysburg, um projectil conico lançado por um canhão raiado feriu cento
e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala
Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze
partidarios do Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro
inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do
Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto
como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete
pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!

Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes?
Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte
calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero
das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que
cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e
cinco homens e uma fracção.

Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica
preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da
humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de
guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião
de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.

Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não
se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no
Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares
de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos
que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos
de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do
Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo
signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços
articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata,
narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn
calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por
quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.

Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes
ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da
batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.

Porém um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos
sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonações, calaram-se
os morteiros, os obuzes para largo tempo açaimados e os canhões de
cabeça pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos
parques, foram-se apagando as recordações sanguinolentas, brotaram com
magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se
fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o
Gun-Club ficou immerso na mais profunda inacção.

Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a
calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas
e obuzes incomparaveis.

Mas sem pratica de que serviam theorias vãs?

Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas
antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se
tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros
do Gun-Club, outr'ora tão ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma
paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditações de artilheria
platonica.

«Que desconsolação, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no
entretanto ia-lhe o lume do fogão carbonisando as pernas de pau: Nada
que fazer! nem uma esperança! Que fastidiosa existencia! Onde vae o
tempo em que as alegres detonações do canhão nos despertavam todas as
manhãs?

Esse tempo já lá vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiçando-se com
os braços que já não tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer
o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando
regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora
a Sherman ou recebido um aperto de mão de Mac-Clellan! Mas hoje, os
generaes voltaram aos seus balcões, e em vez de projectis, expedem
inoffensivos fardos de algodão! Ai! por santa Barbara! Está perdido o
futuro da artilheria na America!

--É verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, são bem crueis estes
desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se
no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se
como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de
tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mãos
nas algibeiras.»

Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves
difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e não eram as
algibeiras que lhe faltavam.

«E nem uma só guerra em perspectiva! disse então o famoso J.-T. Maston,
coçando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. Não ha uma nuvem
no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes
estou fallando, terminei esta manhã a _épure_, com plano, perfil e
elevação de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra!

--Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima
experiencia do honrado J.-T. Maston.

--É verdade, respondeu este. Mas para que hão de servir tantos estudos
levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? Não será tudo isto
trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se
conluiaram para viver em paz, e até o nosso bellicoso _Tribune_[6]
chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas
pelo escandaloso crescer das populações.

--Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda
continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades!

--E então?

--Então! Talvez se podesse tentar por lá alguma cousa, e se acceitassem
os nossos serviços...

--Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em
proveito de estrangeiros!

--Sempre era melhor do que não fazer nada, retorquiu o coronel.

--De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale
a pena pensar em similhante expediente.

--E porque? perguntou o coronel.

--Porque no velho mundo tem lá umas idéas ácerca de accesso e promoção,
que estariam em opposição com todos os nossos habitos americanos.
Imagina aquella gente que se não póde ser general em chefe sem ter
servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem póde
fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canhão! Ora
isto é nada mais nem menos do que...

--Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o «bowie-knife»[7] os
braços da poltrona, e pois que assim é, não temos mais remedio do que ir
plantar tabaco ou distillar azeite de baleia!

--Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois não havemos
de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeiçoamento
das armas de fogo! Não ha de offerecer-se nova occasião de ensaiar o
alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera
com o relampago dos nossos canhões! Nem uma só difficuldade
internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das
potencias transatlanticas! Não ha de haver algum francez que metta a
pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em
menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos
nossos!

--Não, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, não é para nós tanta
ventura. Não! nem um d'esses casos succederá, e que succedesse, nem ao
menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a
susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando.

Title:Da terra à lua (ilustrado)Format:Kobo ebookPublished:October 28, 2015Publisher:Consumer Oriented Ebooks Publisher

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ISBN:9990051193961

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