Dispersão: 12 poesias por Mario de Sá-Carneiro by Mário de Sá-Carneiro

Dispersão: 12 poesias por Mario de Sá-Carneiro

byMário de Sá-Carneiro

Kobo ebook | July 29, 2009

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Nam imagino esta palavra Sécia de alguem ignorada; porque todos no presente tempo a uzaõ, cada hum por seu diverso, e plausivel modo: porém para mayor clareza do seu conhecimento, quero manifestar, com alguma indagaçaõ particular da sua diffiniçaõ, as qualidades, que precisas imagino para todo aquelle que perfeitamente, e com desvélo se quer empregar cuidadoso no seu culto, e ignora muitas das suas circunstancias; e juntamente por julgar que naõ será fastidioso similhante discurso, quando a curiosidade taõ incessantemente solîcita procura cada vez aperfeiçoar-se mais no seu emprego. Nasceo a Sécia no mundo, parto de mal fundadas fantasias, e com excessivas dores; pois naõ podia deixar de vir prognosticando pesares quem vinha já experimentando martyrios: e alimentada pelo leite de supposta nobreza, e de sonhada, bem que praticada, fidalguia, se foy criando no berço da loucura; atè que finalmente em breves tempos se pôs como titulo honorifico de Senhora. Entrou a reinar por morte de hum seu irmaõ por varonia legitima chamado Eres, que por velho morreo a desprezos da moda; que esta, como mudavel, nunca tem muita permanencia. Tem hoje universal o seu mando, e dominio; porque de todos he com excesso gostoso, e estimada, e ainda da mesma pobreza: porque naõ encontrey athégora pobre, que na mesma penuria ainda naõ fosse Secia; pois na humildade he que se geraõ os mayores fumos. Naõ reparem em fazer universal a proposiçaõ, que poucas vezes a haõ de poder fazer conversa em particularidade pelo que tem de paradoxa. Sécia he a altivez de genio, que se cria de hum vapor subido ao miolo, que escurece o discurso para o conhecimento. Sécia he huma vaidade produzida de hum tronco, ou para melhor dizer de huma arvore, que muitas vezes reparte do mesmo rocio da aurora, como se as suas folhas fossem alcatruzes da agoa do Lethes para esquecer mal nascidos principios. Sécia he huma vangloria de letras, em quem apenas sabe soletrálas, porem naõ entendelas, e a mayor desgraça consiste em que muitas vezes se reputa no mundo por huma sciencia applaudida, o que meramente he huma ignorancia affectada. Sécia he huma fama, e merito, que com approvaçaõ de quatro leigos se origina, e em vez de ter cem bocas de bronze para a harmonia, tem cem gaitas de folles para a consonancia; porque aos rusticos, e apaixonhados, soa melhor huma trombeta bastarda, que huma flauta subîda. Sécia he huma honra com presunções (que o diabo he ser o mesmo honra presumida, que serdes honra declarada) em cuja altivez se ostenta o mayor recato de diminuto merecimento a sua pudicicia. Sécia he huma sympathia que se cuida de agrado sem attençaõ, de que póde ser reciproco o dezejo do lucro, que mais a faz ser conveniencia, que natural inclinaçaõ. Sécia he huma capa de retalhos, porém imaginando que senaõ póde pôr com ella huma purpura, com insignias. Sécia he huma ladroice sem escrupulos, (porque quem quizer livrar-se de escrupuloso, ponha-se a ladraõ; que he o melhor, e mais optimo remedio de os sarar) com attribuiçaõ de que o roubar he fazer officio, considerando emulumentos o que saõ tribulações de bolças. Sécia he hum conhecimento, e opiniaõ de querido, em cujo animo naõ ha esperança que naõ produza logo caridade; sem attençaõ de que o que elle de presente tem alcançado com affecto, muito antes logrou outro com mayor agrado. E finalmente, para que se veja isto mais especificamente, tirando a idéa o rebuço á metaphora, e expellindo a confusaõ, que he o mesmo que tirar a pevide à lingua, dirà com mais claridade o mesmo, e mais alguma cousa, de que athégora tem dito às escuras. He este nome Sécia huma generica diffiniçaõ; pois comprehende universalmente diffinidos: e sendo diffiniçaõ na verdade, naõ observa as suas leys: porque neste caso naõ concorda a diffiniçaõ como diffinido, tendo tantas differenças, e talvez que só por esta lhe venha proprio o nome. E para desempenho do promettido vamos indagando, em parte, já que naõ podemos em todo algumas das pessoas, que inclue; para que po
Title:Dispersão: 12 poesias por Mario de Sá-CarneiroFormat:Kobo ebookPublished:July 29, 2009Publisher:Library of Alexandria

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ISBN:9990009193234

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