O Pequeno Deus by Fabiano Da Fé

O Pequeno Deus

byFabiano Da Fé

Kobo ebook | November 30, 2015

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Houve uma época em que um jovem planeta vagava pelo céu, descrevendo órbitas ao redor de um maravilhoso Sol azulado, que lançava seu brilho intenso em meio a uma constelação ainda desconhecida para nós, apesar de todos os poderosos telescópios que possuímos atualmente. Pois o tal planeta era lindo - um pouco menor que o nosso - e isso foi há tanto tempo, mas tanto tempo, que nem mesmo o Sistema Solar que habitamos existia ainda. Sim, ainda não existiam a Terra e a Lua, nem Marte, Júpiter, Saturno... nenhum deles. Nosso próprio Sol não passava de uma ideia guardada na mente de Deus, esperando pelas poderosas forças que o criariam. Pois o planetinha lá estava, prontinho, com seus mares, rios, montanhas, florestas e desertos. Tudo certinho, em cada detalhe. A atmosfera que o cercava era azulada como o nossa, abrigando nuvens que iam para lá e para cá, ao sabor dos ventos suaves que refrescavam o solo. Tudo era puro, limpo, bem organizado. A natureza estava em equilíbrio. Pois foi ali, nesse cenário de beleza e paz, que X abriu seus olhinhos pela primeira vez. E quem, ou o que, era X? Pensando bem, acho que nem mesmo ele sabia quem era, pois quando olhou ao seu redor, ainda meio estonteado, não viu ninguém nas proximidades. Não sentiu medo ou solidão, pois ainda não conhecia esses sentimentos, e tudo era perfeito demais, agradável demais, confortável demais. Parecia que o planeta o abraçava, feliz pela sua chegada, como uma mãe carinhosa o faria com seu primeiro filho recém-nascido. E assim viveu, confortavelmente, durante muito e muito tempo. Não tinha necessidades. Como por milagre, tudo lhe era concedido, bastando um simples pensamento ou desejo seu. Desconhecia o que era fome, sede, frio ou calor. Nenhuma doença o atingia, nada o incomodava. Por ele, viveria ali para sempre. E assim, X cresceu, forte e saudável, repleto de energia. Até então, não sentira falta de companhia. Ele mesmo se bastava. Brincava com animais que o procuravam e que pareciam divertir-se imensamente com sua presença. Alguns eram grandes, cobertos por longos pelos, caminhando sobre quatro pernas e com um curioso apêndice no final das costas. X os cavalgava, correndo pelos campos, sem medo de cair, pois a relva macia que se espalhava por toda parte amorteceria qualquer choque com o solo. A maioria, porém, era de pequeno tamanho e de uma variedade infinita de formas e cores. Esses eram os mais divertidos. Pulavam sobre ele, lambiam-lhe o rosto e corriam para lá e para cá, sempre alegres e brincalhões. Alguns, cobertos de penas, pousavam sobre seus ombros e entoavam cantos maravilhosos, que costumavam embalá-lo até o sono. Anos e anos passaram-se nessa deliciosa rotina. Mas a curiosidade, aos poucos, tomava conta dele. Algo em seu interior começara a levantar questões para as quais não tinha resposta: “Quem sou eu?” “O que estou fazendo aqui?” “Que lugar é este?” “Estou sozinho aqui?” “O que é essa angústia que às vezes me deixa inquieto, apesar de tudo o que possuo?” E assim por diante. Eram tantas perguntas que chegavam a deixá-lo tonto. Foi assim que, um dia, resolveu partir. Tinha crescido, seus músculos brilhavam sob a pele e ele se sentia pleno de coragem e energia. Definitivamente, estava pronto para a grande aventura que o esperava. Um dia, ao nascer do sol, X levantou-se, banhou-se no rio tão conhecido seu e resolveu começar a caminhar. Bastou um segundo de reflexão para decidir a direção que tomaria: acompanharia o curso da água ao seu lado, no sentido em que ela corria. Pelo menos, sabia que não sentiria sede. Como nada possuía, não se preocupou em levar o que quer que fosse. Confiava nas forças que sempre o haviam sustentado e protegido. Os primeiros passos foram acompanhados por uma enorme quantidade de animais, que pareciam chorar pela sua despedida. As melodias dos pássaros nunca soaram tão tristes. Em poucas horas, ele ficou só. À sua frente, estendia-se uma vasta planície coberta de relva rasteira e macia. O riacho murmurava ao seu lado, tranquilizador, como se conversasse com ele. Não lhe faltaram frutas para alimentá-lo. As árvores pareciam saudá-lo à sua passagem. Tudo continuava perfeito. A curiosidade que sentia pelas novidades que via só era interrompida pelas perguntas incessantes que martelavam sua cabeça, e que haviam motivado sua partida. Ele estava disposto a respondê-las, uma a uma. Com o passar das horas, o astro brilhante que corria pelo céu começou a aproximar-se do horizonte. A noite se aproximava. Pela primeira vez, ele começou a pensar sobre tudo o que estava acontecendo. Encontrando uma bela arvora frondosa, deitou-se para dormir. De onde estava, podia contemplar o corpo no céu que, emitindo uma profusão de cores, mergulhava por trás de uma montanha distante. Já meio sonolento, considerou que algo que fosse tão poderoso a ponto de iluminar e aquecer o mundo, provavelmente seria um ser muito superior a tudo que ele conhecia, inclusive ele mesmo. Lembrou a sensação de energia crescente que tomava conta de seu corpo, quando se banhava naquela claridade maravilhosa. “O que será ele?” – perguntou-se, enquanto, com os olhos já quase fechados, contemplava o grande disco sumir no céu. Como não conhecia o significado da palavra “Deus”, resolveu chamá-lo por um som que costumava emitir, quando estava feliz: “OM”. E mergulhou num sono profundo e sem sonhos. Despertou na obscuridade do amanhecer. Ao contrário do que costumava fazer, não levantou de imediato para o banho matinal no rio. Optou por permanecer deitado um pouco mais, contemplando as últimas estrelas que restavam no firmamento. Não deixou de perceber, pela primeira vez em sua vida, a grande variedade de tamanho e brilho entre elas. “Por que será?” – perguntou-se. E mais essa dúvida penetrou no seu jovem espírito. Subitamente, quase às suas costas, o astro brilhante começou a emergir, clareando profusamente o mundo ao seu redor. “Não entendo. Ontem, ele foi embora bem à minha frente, por trás daquelas montanhas. Agora, ele apareceu do outro lado, por cima das árvores da floresta.” E, bem no fundo de sua mente, brilhou uma luzinha, muito fraquinha ainda, mas que pareceu lhe dizer que a resposta a mais essa questão seria o fato de que o disco brilhante girava em torno dele e do seu mundo. Ia continuar a meditar sobre essa possibilidade, quando a luz do astro incidiu diretamente sobre os seus olhos. Sem saber o porquê, foi tomado repentinamente por uma grande reverência pelo que via. Deixou-se cair de joelhos, a cabeça curvada, e lentamente, com extrema suavidade, pronunciou o nome que, na véspera, lhe ocorrera dar para a fonte luminosa que agora jorrava sobre ele: OOOOOMMMMMMM ... OOOOOMMMMMMM. A energia que brotou daquele som foi gloriosa. Imediatamente, X sentiu que algo se modificava nele, à medida que repetia, mais e mais, o referido som. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, mas percebeu que se tratava de algo muito profundo, que atingia seu coração e acalmava sua mente irrequieta. Sentiu-se muito bem com isso. E aquele planetinha ouviu, pela primeira vez, uma respeitosa saudação feita a um ser superior.
Title:O Pequeno DeusFormat:Kobo ebookPublished:November 30, 2015Publisher:Clube de Autores

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ISBN:9990051863284

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