Vilarejo: A vila do Bom Sossego by Juvenal Neves De Souza

Vilarejo: A vila do Bom Sossego

byJuvenal Neves De Souza

Kobo ebook | March 23, 2016

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A ideologia do sertão nordestino parece conter elementos básicos diferentes do cidadão metropolitano: Só é homem, só é cabra macho, aquele que enfrenta. A ideia implícita parece ser a de que se não enfrentar é “brocha”, “covarde” ou não garante as calças que veste e por isso ele é compelido a mostrar o que muitas vezes não é. Não existe o significado “pena do outro”, muito menos da família; 

A ironia tem sempre um sentido de que haverá uma desforra. Portanto a brincadeira, a ironia é sempre feita com um sentido duplo: “você vai ver!” ou, “isso não vai ficar assim!”. O homem sertanejo parece ter herdado o sentido de proteger o seu bando (família, amigos, jagunços, lugar, vila, etc.) através da eliminação de “elementos nocivos” ao bem-estar daquele grupo. 

Percebe-se então que, sempre há um jogo de estratégias para encontrar um ponto fraco no outro e isto é o que motiva os episódios tristes e sanguinolentos de vingança oriundos dos familiares da vítima. Ainda que alguém possa imaginar que o machismo pudesse ser cultivado por algum propósito ainda não identificado, tal atitude não deveria dominar uma cultura a ponto de calarem os que nada têm a ver com os conteúdos inconscientes ou razões e justificativas aparentemente racionais dos outros (ricos, poderosos ou autoridades). 

É de admitir-se que numa região onde, desde os primórdios se mesclaram os insaciáveis anseios pelo ouro e o diamante, os arroubos desmesurados de bravura, o ódio indisfarçado da escravidão, como aconteceu no último quartel do século XIX, os choques a mão armada, que abalaram o município e o caracterizaram por muito tempo, como um dos mais fortes redutos do banditismo no Brasil. Daí surgiria mais tarde a figura brava de herói e de caudilho de Horácio de Matos, que tem o seu nome ligado à história da região da Chapada Diamantina, quiçá de todo o sertão baiano. 

Dos encontros sanguinolentos entre as hostes de Horácio de Matos e as do seu antagonista Coronel Militão Coelho, que tingiram de rubro e cobriram de crepe a cidade de Campestre e, mais tarde, a de Brotas de Macaúbas e a vila de Barra do Mendes. Esses fatos tornaram-se de tal vulto que atingiram o Governo do Estado, na gestão do Dr. Antônio Ferrão Muniz de Aragão, tanto quanto no do Dr. José Joaquim Seabra, quando várias expedições policiais foram batidas ou destroçadas e obrigadas a uma capitulação incondicional, repercutindo na Câmara e no Senado Federal bem como no Governo da República. 

Logo após a Revolução de 1930, porém, foram cambiados para a capital todos os caudilhos da “política do coronelato” do interior. Nessa ocasião, veio o aguerrido sertanejo Horácio de Matos a encontrar a morte, fria e calculadamente assassinado por um policial “à paisana”, em plena via pública, na cidade de Salvador. 

E o sol ardente do vale do São Francisco pôde evaporar a poça de sangue e descorar a mancha que ambotava a tão notória vila agrícola da Nossa Senhora de Brotas de Macaúbas, hoje progressista município de Brotas de Macaúbas, depois de um governo revolucionário apreender montões de armas indevidamente depositadas nas mãos dos “coronéis”; segundo publicação da época, eis, em cifras, o material apresentado pelo Capitão Otávio Guimarães, só na zona das Lavras Diamantinas — 30.500 fuzis de guerra, 376 quilos de munição, 236 mil cartuchos, 2 fuzis-metralhadores e 2 máquinas para fazer cartuchos. 

Filho de um ex-tropeiro, Juvenal Neves é um desses escritores que se fazem na lida e na observação de sua gente. É no garimpo da história de seu povo que se encontra a força de sua literatura. Os personagens são reais. Ele os observa de perto, com carinho e a compreensão dos iguais. Ele vai mapeando os tipos e sua geografia humana é absolutamente necessária para compreendermos um pouco mais o Brasil. Seu pendor artístico dá á obra um sentido próprio original, ao mesmo tempo que o insere no rol de escritores do nordeste brasileiro.

Title:Vilarejo: A vila do Bom SossegoFormat:Kobo ebookPublished:March 23, 2016Publisher:Juvenal Neves

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ISBN:9990051581447

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